15/06/2016

Amar o não amável – O humilde amor

por Obras completas São João da Cruz

Marcados por um mundo imperfeito, trazemos em nossas posturas a imagem dessa imperfeição; desconfiados e defensivos não conseguimos entender nem traduzir em nossa vida a linguagem do amor, do amor humilde que é a mensagem da vida de Cristo, o que Ele ansiou e anseia que possamos viver. Sentimo-nos justificados em ignorar ou deferir este […]

Marcados por um mundo imperfeito, trazemos em nossas posturas a imagem dessa imperfeição; desconfiados e defensivos não conseguimos entender nem traduzir em nossa vida a linguagem do amor, do amor humilde que é a mensagem da vida de Cristo, o que Ele ansiou e anseia que possamos viver.

Sentimo-nos justificados em ignorar ou deferir este ou aquele de nossa vida porque nos traiu, nos humilhou, nos enganou… Afinal de contas, como amar pessoas que não nos sugerem segurança? Parece simples e perfeitamente humano este pensamento, mas é aí mesmo que a lógica evangélica quebra a lógica racional: um pensamento perfeitamente humano é por vezes imperfeitamente cristão, portanto fora do âmbito da graça. É o próprio Jesus quem nos ensina na Palavra: “Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem” (Mt 5,44).

Normal dentro de nós tudo se levantar contra esse pedido do Senhor, porque nossa justiça humana não entende a linguagem do humilde amor. Essa linguagem se revela a nós na pessoa de Jesus, na sua entrega numa manjedoura pobre, fria, imprópria a um recém nascido, e vai até ao calvário, na cruz, ao derramar inocentemente todo seu sangue por amor a nós… E então podemos nos questionar: qual a justiça de tudo isso? Qual explicação lógica damos a este caminho trilhado por Deus para nos salvar? Ou melhor, perguntando: qual nosso mérito em tudo isso?

Penso que a resposta parte da reflexão, do princípio evangélico, cristão, do humilde amor que se entrega simplesmente, sem nada esperar, Ele se dá, sem questionamentos, gratuitamente… É essa a lógica de sua justiça: a gratuidade, tão diferente do nosso raciocínio humano que não inocenta ninguém, a não ser que o réu sejamos nós mesmos.

É preciso aqui neste ponto, compreender o que nos parece incompreensível: o amor é sempre fecundado pelo sofrimento, ele é a flor que nasce no madeiro da cruz.

Amar o próximo quando encontro nele meu prazer, minha alegria é típico também dos pagãos. O nosso testemunho se evidencia justamente quando este que eu amo me trai, me julga, me difere, e eu posso escolher continuar a amá-lo, pois a infinita liberdade gerada em mim pela graça me permite e impulsiona a fazer esta escolha, mesmo quando este deixa de ser minha fonte de prazer e alegria, passando a gerar em mim guerra, dor, tristeza, e é precisamente aí, que escolho fazer diferença, amando-o, não o excluindo da minha vida, não desistindo dele. Somente assim poderemos mostrar ao mundo o humilde amor, o mesmo que Jesus manifestou ao bom ladrão, ao lhe garantir o céu, o inocentando de todas as faltas (Lc. 23,41-43), ou ainda quando confia a Pedro as chaves da Igreja, aquele que o negaria três vezes, que o trairia… E esse mesmo amor também se revela no Mestre que cinge os rins e lava os pés dos discípulos e pelo seu exemplo deixa uma ordem: “…se eu que sou Senhor e Mestre, vos laveis os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros.”(Jo. 13,14)

São João da Cruz, depois de sofrer toda espécie de traição, perseguição e desamor por parte de seus irmãos de ordem, sintetiza sua experiência mística numa frase: “no entardecer da vida seremos julgados acerca do amor”.

E concluímos dentro da linha de pensamento do nosso fundador, “não podemos desistir de ninguém, porque Cristo não desiste de nós.”

Dentre toda a criação, é o homem a imagem mais viva de Deus na terra, é, pois, este homem que somos chamados a amar e a contemplar nele o amor, ainda que esta imagem esteja desfigurada. Só seremos sinal de esperança uns para os outros pela vivência do belo, puro, e desinteressado humilde amor, aquele do qual também nos fala São Paulo, que tudo crê, suporta e espera.

Que o Senhor nos dê a sua Graça!

Fontes:
Bíblia sagrada
Obras completas São João da Cruz
Comunidade Lugar do perdão e da festa (Jean Vanier )

Formação: Dezembro / 2009

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