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13/03/2018

Um percurso histórico da Igreja primitiva à primavera do Concílio

Sob as palavras de Tertuliano, “Os cristãos fazem-se, não nascem feitos.” (cf. ALMEIDA, 2006, p. 31), os cristãos formam a Igreja de Deus santa e consagrada, a nação santa, o povo adquirido.

Os leigos desde a Igreja Primitiva à Trento

 

Os leigos sempre foram presentes na vida eclesial. Um ponto evidente disto é o de que desde os primeiros passos da Igreja pelo Sacramento do Batismo as pessoas são inseridas como membros da Igreja (cf. Mt 28,19). Os membros da Igreja são distintos enquanto a forma de vida eclesial: hierarquia, religiosos e laicato. Tal distinção é natada por dois aspectos, o dogmático (pois o batismo é condição para assumir uma das formas de vida eclesial) e o histórico (a distinção entre hierarquia e laicato está intrinsecamente ligada à fundação da Igreja). É um profundo engano pensar a Igreja tão somente como clérigos (hierarquia e monges/religiosos).

“Desde a metade do século III, distinguimos na Igreja três estados: distinção evidente na realidade antes de ser formulada e codificada, mas que não demorará muito para ter fórmula canônica. Desde esse momento, a Igreja não somente vive: o que fez desde sua animação em Pentecostes; não somente tem uma estrutura essencial: pois a recebeu do Senhor em diversos momentos de sua vida terrestre; mas atingiu seu tipo permanente. Ora, se a estrutura da Igreja comporta a título essencial a distinção entre clérigos e leigos, sua vida, melhor ainda, seu tipo permanente comporta um distinção entre estados ou condições: de leigo, de clérigo e de religioso.” (CONGAR. 1966, p. 17).

Enquanto a existência dos leigos na Igreja, vimos que desde a fundação dela, eles a compõem, sendo os primeiros leigos os primeiros cristãos que não viviam a forma hierárquica e, posteriormente, não viviam a forma monástica/religiosa. Após o esclarecimento acerca da origem do laicato, temos outro ponto que não foi discutido: desde a sua origem o leigo vive ou não seu apostolado? Há duas generalizações opostas a esse respeito. Uma defende a tese de que absolutamente todos os leigos não realizaram nenhum tipo de protagonismo na vida apostólica da Igreja no período compreendido da cristandade medieval e se estende até o surgimento da Ação Católica. A outra defende que essa vida apostólica se deu somente após o Vaticano II.

No Antigo Testamento, por força da eleição divina e da Aliança, Israel é eleito e realiza uma Aliança com Yahveh como povo Deus (cf. Dt 29, 12; Lv 26, 12), povo santo, a Ele consagrado, por Ele separado. Como Israel é infiel à Aliança, os profetas anunciam uma nova e eterna aliança realizada pelo Messias, desta aliança nascerá um novo povo (cf. Is 10, 10). Ela é realizada em Cristo e por Cristo, pela vontade do Pai, na ação do Espírito Santo. Os fiéis em Cristo são regenerados, constituem a novo povo de Deus (cf. 1Pd 2, 9-10; LG 9). Um povo consagrado pela unção do Espírito Santo.

A Igreja incorpora cada fiel a Cristo por meio do batismo e também da eucaristia, edificando o Corpo de Cristo, a Igreja. No âmbito desse povo que é todo consagrado, sacerdotal, o Espírito é que suscita uma variedade de ministérios e de carismas, assim, podemos afirmar que todo o cristão é carismático, isto é, carisma aqui quer dar uma conotação de consagrado, em vista de uma missão própria e distinta na igreja e no mundo. (GERALDO, 2009, p. 32)

Nas primeiras comunidades já era presente a valorização do verdadeiro testemunho cristão, obtendo seu caráter mais claro e convincente a entrega de si mesmo ao Deus revelado em Cristo, esta entrega poderia levar até ao martírio. Isto ocorreu com Estevão, testemunho que será tomado como exemplo por outros homens e mulheres (cf. ALMEIDA, 2006, p. 37).

Os mártires nos transparecem uma ênfase ao verdadeiro testemunho no seguimento a Cristo, doando a própria vida, trouxeram ao conhecimento de todos a novidade cristã. Neste contexto de perseguição, muitos leigos acolheram em suas propriedades os perseguidos como também as vítimas da perseguição. A ação individual e comunitária dos leigos realiza importante papel na conversão de judeus e pagãos nos primeiros passos da Igreja Primitiva.

Sob as palavras de Tertuliano, “Os cristãos fazem-se, não nascem feitos.” (cf. ALMEIDA, 2006, p. 31), os cristãos formam a Igreja de Deus santa e consagrada, a nação santa, o povo adquirido. Neste ambiente, o termo “leigo” ganho o significado de consagrado, santificado. Este caráter de santificado se dá pelo batismo, a unção do batismo faz dele um “cristão”.

Os leigos recuperam o sentido comunitário da realidade eclesial, buscando conscientizar os membros dos grupos sobre o que diz o magistério para saberem como santificar o mundo. A Igreja se ver na incumbência de refletir sobre o mundo e sobre se mesma. Fruto dessa reflexão é a ideia de Igreja como sacramento, como povo de Deus e Igreja como comunhão de pessoas e Igrejas. (cf. FORTE, 2005, p.15.) Vivendo no mundo, mas sem sermos do mundo, santificando-nos, santificamos o mundo.

Ailton Bento Araruna

Aluno do quinto semestre do Curso de Teologia no Centro Universitário Unicatólica, Quixadá-CE.

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