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27/10/2020

Reflexão do dia: O cobertor furado

Se há algo que o Papa Francisco claramente abomina são os pecados da língua, do falar. Nem conto as vezes em que exorta os fiéis dentro e fora do Vaticano a não recorrer à fofoca, a não falar mal dos outros. Tem lá as suas razões. Uma delas, certamente, é que o falar mal de […]

Se há algo que o Papa Francisco claramente abomina são os pecados da língua, do falar. Nem conto as vezes em que exorta os fiéis dentro e fora do Vaticano a não recorrer à fofoca, a não falar mal dos outros. Tem lá as suas razões. Uma delas, certamente, é que o falar mal de quem quer que seja é pecado com grandes consequências. Encaixa-se no quinto mandamento: “Não matarás” e, dependendo da gravidade da intenção e do assunto, constitui-se pecado grave.

Falar mal de alguém é matá-lo. Talvez não com armas brancas ou de fogo, mas matá-lo em sua reputação e em sua oportunidade de recomeçar.

O falar mal de alguém tem poder de vários venenos. O veneno da separação e desunião, pois passamos a desconfiar do malfalado, a rejeitá-lo e, por nossa vez, passar adiante o que ouvimos sobre ele. O veneno do ressentimento, quando passamos a julgar que foi ele quem nos causou esta ou aquela infelicidade. O veneno do desprezo, pois, tendo ouvido falar mal de alguém, passamos a desprezá-lo. O veneno da injustiça, pois a pessoa de quem se falou mal muitas vezes sequer sabe que a estão julgando e falando mal dela. Há ainda o veneno do preconceito, pois passamos a prejulgá-la. A palavra “preconceito” em inglês, italiano e francês é perfeita: pré + juízo = prejuízo, julgamento – prejudice, prejudizio, préjujement.

A pessoa de quem se fala mal, na maioria das vezes, fica rotulada por longuíssimo tempo. Não tem mais o que fazer para voltar a ser considerada de forma diferente da fofoca ou do mal que se disse dela, ainda que a história seja verdadeira, isso é, ainda que não seja uma calúnia, uma história inventada ou imaginada. Assuntos que parecem simples palavras levianas podem tornar-se verdadeiras maldições para a vida da pessoa de quem se fala, como “egoísta”, “mentirosa”, “vitimalista ”, “esperta”, “enrolona”, “centralizada”, “desonesta”, “adúltera” e milhares de outros adjetivos maldosos.

Quantas vezes a pessoa se arrepende, quer mudar, tenta modificar-se e, perplexa, encontra todas as portas fechadas, todas as oportunidades negadas! O que disseram dela tirou-lhe a chance de ser diferente.

Além de causar mal por vezes irreversível a quem é levianamente centro de conversas irresponsáveis, a fofoca é um vício que escraviza o fofoqueiro. Já fiz várias experiências em rodas no qual, incomodada com o teor da conversa na qual se falava mal de pessoas em lista infindável, mudei de assunto. Após poucos minutos conversando sobre o novo tema, todos abandonaram o assunto “não fofoca” que eu havia introduzido para, satisfeitos e autocomplacentes, voltar a fofocar sobre interminável desfile de personagens – de preferência da família, ou rico, ou poderoso, mas sempre ausente. Concluí como o Papa: a fofoca é um vício. Maligno. Profundo. Destruidor de quem fofoca e de quem é seu objeto.

Uma das formas modernas de fofocar sobre famosos ou pessoas da família são as redes sociais. A extraordinária criatividade do brasileiro tem produzido vídeos, charges, textos, montagens sem fim falando mal de tudo e de todos. Também isso é fofoca. Também isso leva ao vício da fofoca.

Na Comunidade, falamos sobre “cobrir com o cobertor de Francisco”, alusão ao Fioretti em que Francisco, ao ouvir irmãos que falavam mal de um terceiro, repreende-os e recomenda que, ao invés de expô-lo ao frio da impiedade e julgamento, devem cobri-lo com o cobertor do amor discreto e compassivo, que crê e espera sua conversão e suporta suas fraquezas.

Esse fioretti sempre me traz à memória Jesus diante de Zaqueu, empoleirado na árvore, consciente de que era ladrão, sem ousar aproximar-se. Na mesma categoria, a Samaritana, a Pecadora, Mateus, Dimas e tantos outros. Certamente Jesus ouvira falar mal da maioria deles, pois eram “pecadores públicos”. Entretanto, não se havia deixado contaminar pelo que ouvia e os cobria com “o cobertor de Francisco”, levando-os à conversão. Você conseguiria imaginar Jesus fofocando? Falando mal de alguém? Ele, que conhece por dentro o coração de cada homem e o ama ainda assim?

Imaginaria Jesus dizendo: “Ei, seu ladrão, desce dessa árvore, seu desavergonhado!”. Ou: “Sua adúltera, me dá aí um pouco de água para ver se limpa a tua barra!”, ou, ainda: “Mateus, seu ladrão, traidor, mau administrador, tira a mão desse dinheiro, seu corrupto sem-vergonha, e me segue”.

Jesus nem dava ouvidos à fofoca, nem fofocava, nem acreditava no que se dizia acerca dos outros. Jesus não fechava a ninguém a porta da conversão, a da mudança de vida. Pelo contrário. Corria ao encontro dos malfalados e malquistos para abrir-lhes, Ele mesmo, a porta que os libertaria.

Papa Francisco tem razão: que pecado terrível é o falar mal de alguém! Que pecado horrendo é o da fofoca, que mata o irmão, que lhe tira todas as chances de conversão e que, como se não bastasse, ainda se torna escravidão de vício para quem fala mal!

Quantos buracos temos feito nos cobertores de nossos irmãos! Como os temos expostos ao frio, à inclemência, à morte!

Pela intercessão de Maria, que tudo guardava em seu coração, sem julgar ou criticar, o Santo sangue de Cristo, vítima de fofocas e calúnias, liberte-nos desse pecado de consequências tão graves!


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