22/02/2016

Quaresma, tempo de ‘quarentena espiritual’

por Irmã Maria Elizabeth da Trindade, ocd

Durante todo o ano litúrgico o Senhor nos concede viver momentos em que nossos sentimentos variam entre alegria, compunção, glória, dor, compaixão, etc. A liturgia é boa pedagoga nos caminhos do espírito e todos os anos nos apresenta um período privilegiado de “quarentena espiritual”, quando somos convidados a nos livrar de “bactérias e doenças espirituais” […]

Durante todo o ano litúrgico o Senhor nos concede viver momentos em que nossos sentimentos variam entre alegria, compunção, glória, dor, compaixão, etc. A liturgia é boa pedagoga nos caminhos do espírito e todos os anos nos apresenta um período privilegiado de “quarentena espiritual”, quando somos convidados a nos livrar de “bactérias e doenças espirituais” que aos poucos, durante o ano, vão minando nossas forças e corroendo nossos bons propósitos, nossos valores cristãos e nossa fé. Este é o tempo da Quaresma, que é o mesmo que “quadragésima”, quarenta dias (sem contar os domingos) que vão desde a quarta-feira de Cinzas até o Tríduo Pascal.

A Quaresma tem início com as cinzas, colocadas na cabeça de cada pessoa durante a Santa Missa celebrada naquele dia. É um sinal fortemente bíblico de penitência, de reconhecimento de que “somos pó e voltaremos ao pó”, embora a fórmula para a imposição das cinzas atualmente seja: “convertei-vos e crede no Evangelho”. As cinzas nos fazem pensar na transitoriedade da vida e na verdadeira Vida que nos espera. Bom começo para quem quer buscar uma conversão sincera. Toda mudança de vida deve partir deste olhar para o futuro que nos espera e para a misericórdia do Senhor que vem em nosso auxílio na fugacidade desta vida. É um gesto simples, mas que deve cair em nosso coração e marcar nossa vida. Ao recebermos as cinzas devemos nos colocar diante do Senhor com o coração aberto, despojado, contrito e cheio de desejos de fidelidade a Ele. Seu amor nos foi entregue até à morte de cruz, o que vou lhe oferecer em troca? Nada, com certeza, irá se comparar à oferta que Ele nos fez, contudo nossos “pequenos nadas”, como dizia Santa Teresinha, têm para Ele um valor infinito, pois é tudo que podemos lhe dar.

Neste clima de oferta, a Igreja vem também nos convidar a viver três grandes atitudes: o jejum, a esmola e a oração. Temas por demais comentados neste período quaresmal, mas que é sempre bom relembrar e gostaria de fazê-lo na dimensão da vida espiritual. Penso que, mais que os outros tempos litúrgicos, a Quaresma nos leva a uma introspecção maior, a um “adentrar-nos na espessura” de nosso coração e, sondando-o, descobrir seus valores e suas mazelas.

Qual o jejum que o Senhor nos pede?

Qual o jejum que o Senhor nos pede? Tudo aquilo que nos impede de uma comunhão maior com Ele. Se o jejum corporal, o abster-se de certos alimentos, nos fortalece na vivência da virtude, do autodomínio, o jejum “espiritual” irá nos fortalecer na nossa intimidade com o Senhor. São João da Cruz nos fala da “noite” de nossos sentidos corporais e espirituais para que só Deus reine em nós. A ascese entra aqui com um papel primordial. Se o ver, ouvir, tocar, envolver-nos afetiva e emocionalmente podem nos distanciar de Deus e nos levar ao pecado, então devo ser forte e resistir. Se a letra de uma música pode nos levar para um mundo de fantasia, por exemplo, erótica ou de ira, ódio, vingança, etc., para que ouvir tal música? Cada pessoa sabe qual sua fraqueza e deve, a partir dela, trabalhar seu interior. Isto é “jejuar” em favor de seu espírito, de sua vida espiritual.

A verdadeira esmola

A esmola é sempre vista como a partilha de bens materiais. Mas existe também a “esmola espiritual”, a partilha dos bens que o Senhor nos concede na nossa oração. Uma esmola não exclui a outra, pelo contrário, se completam. Se digo uma palavra vinda de Deus para uma pessoa necessitada, estou vivendo a dimensão da esmola, sem que isto me faça sentir superior ao outro, ou arrogante. Partilhar é sentir que, se hoje eu tenho, amanhã posso ser eu o mais necessitado. E quem não necessita dos outros? Todos nós somos interdependentes, e partilhar é bom, é fraternidade.

O sustento da oração

A oração é a grande sustentação de nossa vivência quaresmal. Nela podemos englobar todos os nossos esforços de ascese e busca de coerência, pois a partir dela virá a nossa conversão e, uma vez convertidos, poderemos render muito mais para o Reino de Deus. Orar não é ser intimista, é buscar a liberdade interior diante do Senhor para ser melhor e ajudar os outros a também o serem. Pela oração que é amizade com Deus, escuta, adoração, enfim, “um impulso do coração até Aquele que sabemos que nos ama”, vamos nos deixando transformar à imagem Daquele que nos amou por primeiro. E isto é a busca de santidade.

A importância da ascese

A ascese é caminho de libertação, de sair da dependência de nossos vícios para uma liberdade sobre nosso eu e sobre todas as coisas. Esta consiste na prática da renúncia do prazer (…), mas também no esforço metódico e continuado, com a ajuda da graça, para conseguir o pleno desenvolvimento da vida espiritual, aplicando meios e superando obstáculos. Nossa ascese quaresmal deve ter como ponto de partida e como meta o amor. Só ele dá sentido ao nosso esforço, pois ele nos impulsiona a uma identificação com Jesus, nosso Deus-Amor. Se não for por amor podemos até “dar nossos corpos para as chamas”… tudo é vaidade, tudo é inútil.

Como projeto de vida e ponto de reflexão para nossa Quaresma gostaria de sugerir o Salmo 64(65). Nele vemos como Deus “prepara a nossa terra”, o nosso coração para vivermos a alegria da fartura, da Páscoa que é vida nova e abundância de vida. Ele pode ser lido e rezado nesta chave que apresentamos acima, da ascese, do jejum, da esmola, da oração e abertura para a graça de Deus. Fica este convite para nossa Quaresma.

Se alguém te louva em silêncio,
ó Deus de Sião,
ou cumpre os votos em tua presença,
tu ouves sua oração.
Assim toda criatura tem acesso a ti,
apesar das iniquidades.
Elas prevaleceram sobre mim;
tu, porém, perdoas nossos pecados.
Feliz a quem tu eleges e acolhes,
para morar em teus átrios!
Seremos saciados com os bens de tua casa,
com os dons sagrados do templo.
Tu nos respondes com prodígios, segundo a justiça,
Deus, salvador nosso:
tu, esperança dos confins da terra
e do longínquo oceano;
tu, que estabeleceste os montes com força,
cingido de poder;
tu, que aplacaste o rugido do mar,
o estrondo das vagas
e o tumulto das nações.
Os habitantes das terras mais remotas
assombraram-se diante de teus portentos.
Tu enches de júbilo
as regiões do nascente e do poente.
Tu cuidas da terra, irrigando-a
e enriquecendo-a copiosamente;
com as fontes divinas, cheias de água,
preparas seus trigais.
Assim a preparas:
regas seus sulcos, nivelas suas glebas,
com chuvas a amoleces, abençoas o crescimento.
Coroas o ano com tuas dádivas,
e de tuas pegadas emana a fartura.
Da estepe germinam pastagens,
e as colinas se revestem de alegria.
Os prados revestem-se de rebanhos,
cobrem-se de trigais os vales;
exultam e cantam à porfia.

Irmã Maria Elizabeth da Trindade, ocd

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