22/03/2017

No caminho de Paulo de Tarso: Quando chegar o tempo das perdas

por Tatiane Nogueira Leal

Como as perdas estão sendo vividas? Em Deus, para a glória do Seu nome, atestando uma confiança filial? Ou em completa entrega aos problemas em que todo ser humano se vê atravessando? As perdas sempre acontecem, mas o que se faz delas, aí está a compreensão da melhor escolha.

“A gente só perde o que não tem, o que é eterno vem de Deus e o que vem de Deus ninguém detém”.

Perder é uma experiência fecunda quando se analisa o para quê. Como diria o saudoso Pe Léo: “o importante é o para quê, o porquê saberemos no Céu do próprio Senhor”.

Humanamente, na maioria das vezes, pode parecer absurdo, uma loucura, ser grato a Deus pelo que Ele não nos dá ou pelo que Ele nos tira. Mas bem diz São Paulo, “sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio”. (Rm 8,28)

O cristão autêntico confia e espera em Deus, sabe que Ele o ama como filho, por isso lhe permite o que é melhor. A cruz traduz perder a vida em favor dos irmãos os quais o Senhor veio resgatar da morte causada pelo pecado. “A pregação da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que são salvos, para nós, ela é força de Deus” (ICor 1,18).

Oportunidades de emprego, de estudo, de relacionamentos são coisas boas, porém, se vivenciadas no tempo e de forma errados, podem levar a perder o que é essencial e, portanto, inegociável.

Perder é aprender, ocasião de amadurecimento. Óbvio que ninguém, dentro da normalidade, tem prazer em perder. Mas há perdas necessárias, como a poda de uma árvore pra que ela se renove e possa ser mais fecunda em seus frutos a fim de que vá restaurando sua vida. Agradecer a Deus pelas perdas permite o desapego, o abandono, a confiança Nele. Aquele que nos criou sabe o que não pode faltar. E se não nos permite o que, em nossa concepção, seria bom, não o faria senão em vista de algo melhor.

Na vida a serviço do Reino acontecem divisões, tanto no meio secular e no apostolado diário como nos serviços dentro da obra de Deus desenvolvida na Igreja e por meio Dela. Como Paulo, o Santo, somos chamados à santidade, por vontade de Deus, como nos refere o primeiro capítulo de ICoríntios, como também   ele dá sempre graças a Deus a respeito do seu irmão.

Diante das divisões que surgirão, a opção preferencial é o respeito ao irmão e à sua convicção, ainda que contrária: gratuidade no serviço. Porque o serviço se faz a Jesus na pessoa do irmão. Desse modo é urgente construir a unidade da comunidade. Não é fácil, é obra do Espírito Santo, por isso Ele concede os dons carismáticos, “em vista do bem de todos” (ICor 12,7).

PALAVRA DE SABEDORIA, PALAVRA DE CONHECIMENTO, FÉ, CURA, MILAGRES, DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS, LÍNGUAS, INTERPRETAÇÃO DAS LÍNGUAS e, sobretudo, a CARIDADE (I Cor 12 -13) são os dons de Deus que Ele “distribui a cada um conforme quer” (ICor 12,11), que dispõe a boa ordem na assembleia e realiza o acolhimento da ressurreição de Cristo e seu triunfo final.

Não são os perfeitos que Deus chama, Ele mesmo revela a sua graça contida na cruz, na perda de si mesmo, para a salvação da humanidade. Sua sabedoria é fundada na cruz e no poder do Espírito (ICor 2,4) e não como poder humano. A fraqueza e imperfeição dos seus escolhidos atestam que só por graça se pode realizar a obra de Deus. Seus eleitos são aos olhos do mundo poucos, mas quem os julga é Deus. “Quem me julga é o Senhor” (ICor 4,5), diz Paulo, o Santo.

Paulo, na Carta aos Coríntios, orienta que Cristo é o único fundamento, e as dúvidas que vão surgindo no cotidiano têm nEle a verdade que liberta.  Anunciar Jesus é não pactuar com a idolatria e as divisões, é buscar em tudo a Glória de Deus. Esse é o referencial do quê e como perder ou ganhar.  O que é perda? O que é ganho? O Espírito Santo por meio dos dons responderá.

Desavenças acontecem, porém é primordial que se faça a reconciliação. Nas aflições, Deus consola (IICor 1,4) e envia a consolar também, a perdoar. Não por mérito pessoal, “nossa capacidade vem de Deus” (IICor 3,5), “o poder extraordinário vem de Deus” (IICor 4,7). O ânimo e a esperança do cristão diante das perdas do dia a dia estão em Deus, “o amor de Cristo nós impele” (II Cor 5,14), não é em vão que a graça de Deus é dada no batismo. É para que “não demos a ninguém motivo de escândalo” (IICor 6,3), vivamos em “constância inalterável” (IICor 6,4), porque somos templo de Deus, onde Ele quis habitar.

A perda produz tristeza, mas nem toda tristeza é ruim. Há tristeza que produz arrependimento, essa é a tristeza fecunda que provém do encontro amoroso com Deus, que impulsiona a mudança, a conversão, a partilha da vida e dos bens.

Diante da simplicidade fecunda da verdade, vem ao coração a questão fundamental: como as perdas estão sendo vividas? Em Deus, para a glória do Seu nome, atestando uma confiança filial? Ou em completa entrega aos problemas em que todo ser humano se vê atravessando? As perdas sempre acontecem, mas o que se faz delas, aí está a compreensão da melhor escolha.

Deus é o ponto de partida e onde vamos chegar, pobreza ou fartura, nEle tudo se torna princípio e fim da vida. Ele tudo dá e tudo pode tirar.

 

Tatiane Nogueira Leal

Consagrada na dimensão de Aliança da Comunidade Mariana Boa Semente

Missão Quixeramobim (Sede)

Coordenadora diocesana do Ministério de Intercessão

Teóloga pela Unicatólica

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