22/10/2015

João Paulo II e O Evangelho do Sofrimento

por Artigo publicado inicialmente pela Revista Shalom Maná

João Paulo II conheceu o sofrimento desde jovem e com ele conviveu de forma muito particular em seu pontificado Desde a infância, o Santo Padre conheceu o sofrimento, encontrando-o, talvez pela primeira vez, de maneira intensa com a morte prematura da sua mãe. A Segunda Guerra Mundial e a pobreza, além das árduas vicissitudes do […]

João Paulo II conheceu o sofrimento desde jovem e com ele conviveu de forma muito particular em seu pontificado

Desde a infância, o Santo Padre conheceu o sofrimento, encontrando-o, talvez pela primeira vez, de maneira intensa com a morte prematura da sua mãe. A Segunda Guerra Mundial e a pobreza, além das árduas vicissitudes do comunismo, então imperante na Polônia, formaram o jovem Karol na dura “escola do sacrifício e da dor” [1].

Contudo, o sofrimento nos anos juvenis do Santo Padre consolidou-se inclusive na sua força salvífica de realidade geradora de vida. Precisamente a propósito da sua opção vocacional, ele expressou-se com os seguintes termos: “…O meu sacerdócio, desde a hora do seu nascimento, inscreveu-se no grande sacrifício de muitos homens e mulheres da minha própria geração. A Providência poupou-me as experiências mais difíceis; por isso, é muito maior o sentido da minha dívida às pessoas que conheci, do mesmo modo que às muito mais numerosas que não conheci, sem distinção de nação e de língua que, com o seu sacrifício sobre o grandioso altar da história, contribuíram para a realização da minha vocação sacerdotal. De certa forma, elas introduziram-me neste caminho, indicando-me na dimensão do sacrifício a verdade mais profunda e essencial do sacerdócio de Jesus Cristo” [2].

Em linha de continuidade, o seu pontificado recebeu depressa uma característica muito particular. Por volta das 17 horas do dia 13 de maio de 1981, ao atravessar a praça de São Pedro para saudar os fiéis ali reunidos, do revólver do terrorista turco, Ali Agca, foi disparado um tiro que o feriu gravemente. Enquanto, de toda a Igreja se elevavam preces ao Senhor para obter a salvação da vida do Vigário de Cristo, na Polônia outro pastor, o Servo de Deus Cardeal Wyszynski jazia enfermo, quase no fim da sua vida. Ele tinha predito ao novo Sumo Pontífice que teria feito a Igreja entrar no novo milênio; precisamente no momento em que o Bispo de Roma se encontrava internado num leito hospitalar, o purpurado polaco morria, no dia 28 de maio de 1981.

Carta apostólica

Estes episódios marcaram profundamente o pontificado de João Paulo II, a tal ponto que, tendo-se restabelecido em boas condições de saúde, depressa lançou mãos à obra e projetou uma Carta Apostólica dedicada exatamente ao sentido cristão do sofrimento humano. Foi assim que apareceu a Carta Apostólica Salvifici Doloris, assinada pelo Sumo Pontífice, no dia 11 de fevereiro de 1984. Trata-se de um documento programático, esclarecedor, elaborado num período em que o consumismo e as doutrinas ateias corriam o risco de influenciar profundamente a vida dos fiéis e até mesmo o ensinamento daqueles que eram encarregados da formação do povo de Deus.

 

  1. O sofrimento no ensinamento do Santo Padre: Salvifici doloris

Na introdução da Carta Apostólica Salvifici Doloris, o Santo Padre recordava a todos as palavras surpreendentes de São Paulo aos Colossenses: “Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” [3].

Os sofrimentos de valor infinito de Cristo Homem-Deus não têm necessidade de outras dores para salvar, constituindo a única causa de salvação para todos. O poder ilimitado dos seus sofrimentos confere aquilo que falta aos sofrimentos de cada homem que sofre. Todavia, há que efetuar a fruição dos dons produzidos pela cruz de Jesus Cristo. Jesus, por assim dizer, preparou uma mesa, onde não falta qualquer bem, senão alguém que ocupe o lugar à mesa e se nutra com o alimento preparado também para ele. O convidado, revestido dos sofrimentos que o próprio Deus oferece a cada um como hábito, completa a mesa.

Cristo salva por intermédio da morte do seu corpo de carne; o homem é salvo e ajuda a salvar com os sofrimentos de Jesus Cristo, que oferece a cada um o privilégio de sofrer como Ele e juntamente com Ele, em ordem a continuar a salvar nele, também mediante o sofrimento da sua própria carne.

Os sofrimentos do cristão, vividos conjuntamente com os padecimentos de Jesus, permitem conceder os benefícios de Cristo ao seu Corpo místico. Por conseguinte, a Igreja não apenas é “Corpo de Cristo” que é salvo através dos sofrimentos do Homem-Deus, mas é também o seu “Corpo Místico” que continua a salvar o mundo mediante os padecimentos de cada um dos seus membros. Assim, eles completam por vocação recebida do Senhor, os mesmos sofrimentos de Jesus Cristo.

Impressionam profundamente as expressões do Santo Padre sobre o valor do sofrimento, quando afirma que “parece fazer parte da própria essência do sofrimento redentor de Cristo: o fato de ele solicitar a ser incessantemente completado” [4]. Deste modo, “todo o sofrimento humano, em razão da sua união com Cristo no amor, completa o sofrimento de Cristo. Completa-o como a Igreja completa a obra redentora de Cristo”… [5]

  1. O sofrimento no Magistério vivo do Santo Padre

Durante a alocução do Angelus de 29 de maio de 1994, depois de uma hospitalização de algumas semanas na Policlínica “Gemelli” de Roma, o Santo Padre fez uma importante referência ao sofrimento, evocando os momentos de dor e de apreensão que tinham acompanhado o atentado de que fora vítima no dia 13 de maio de 1981.

“…Gostaria que hoje, através de Maria, se expressasse a minha gratidão por esta dádiva do sofrimento, novamente ligado ao mês mariano de maio. Desejo dar graças por este dom. Compreendi que se trata de um dom necessário. (…) Encontrei ao meu lado a grande figura do Cardeal Wyszynski… No início do meu Pontificado, ele disse-me: ‘Se o Senhor te chamou, tu deves introduzir a Igreja no Terceiro Milênio’… Então, compreendi que devo introduzir a Igreja de Jesus Cristo neste Terceiro Milênio com a oração e com diversas iniciativas, mas entendi que não basta: era necessário introduzi-la com o sofrimento, com o atentado há treze anos e com este sacrifício.”.

Esta alocução do Papa tem realmente o teor de uma profecia! O Evangelho do sofrimento no Magistério de João Paulo II não foi simplesmente o capítulo de uma Carta Apostólica, não representou apenas um parágrafo de um documento oficial. Foi muito mais: ele tornou-se carne e sangue na própria pessoa do Sumo Pontífice, tornou-se o Magistério vivo. Ele anunciou-o nos seus anseios pelo mundo repleto de guerras e surdo aos seus indefessos apelos de paz; nele, tornou-se uma tarefa missionária em contacto com os dramas do povo de Deus, ao qual ele soube falar de esperança.

Contudo, o Evangelho “superior” do sofrimento foi proclamado clara e fortemente pelos seus próprios padecimentos físicos, pela cruz da doença vivida com coragem e de maneira incondicional no seu mandato de Pastor da Igreja universal, “usque ad sanguinis effusionem”… [6]. Somente hoje, talvez, compreendemos a linguagem arcana a que Deus recorre, do tanto o anúncio do Papa de uma nova “argumentação do sofrimento.

“O Papa devia sofrer”, disse João Paulo II no dia 29 de maio de 1994, talvez porque quando todas as palavras se esgotam, quando todos os apelos resultam ineficazes, somente a cruz consegue penetrar na obstinação do coração humano, corroído pelo ódio e pelo egoísmo. Para introduzir e acompanhar a Igreja no Terceiro Milênio, não são suficientes as iniciativas, até as mais geniais, e nem mesmo a oração:  é necessário o sofrimento dos filhos de Deus, os padecimentos dos Santos, a dor do Vigário de Cristo e de “todos aqueles que sofrem com Cristo, unindo os próprios sofrimentos humanos ao seu sofrimento salvífico” [7].

O sofrimento e o santo Rosário

No final do ano de 2003, que o Santo Padre dedicou à recitação do Rosário, tão caro a Maria, não podemos deixar de recordar que o Rosário constitui o instrumento indefectível de quem quer aprender “o sentido do sofrimento salvífico” [8]. Em Oristano, no dia 18 de outubro de 1985, o Papa afirmava:

“Exorto-vos profundamente, doentes… a rezar todos os dias a Nossa Senhora com o santo Rosário. Dado que a saúde é um bem que faz parte do projeto primitivo da criação, recitar o Rosário pelos doentes, a fim de que possam ser curados ou pelo menos obter o alívio para os seus males, é obra singularmente humana e cristã…”. [9]

Através do Rosário, o cristão coloca-se na escola de Maria, grande mestra na cátedra da cruz. Por conseguinte, o Rosário, o sofrimento e a inocência tornam-se termos constantemente solidários nas biografias dos apaixonados de Deus e nas atenções pastorais do Papa João Paulo II.

Notas

[1] Padre Pio de Pietrelcina, Epistolário, vol. III San Giovanni Rotondo 1987, pág. 106.

[2] João Paulo II, Dom e Mistério, Cidade do Vaticano 1996, pág. 47.

[3] Cf. Cl 1, 24.

[4] João Paulo II, Salvifici doloris, 24.

[5] Ibidem.

[6] Cf. João Paulo II, Discurso proferido no dia 22 de Outubro de 2003, em:  ed. quot. deL’Osservatore Romano de 23.10.2003, n. 4.

[7] João Paulo II, Salvifici doloris, 26.

[8] João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae, 25.

[9] João Paulo II, O Evangelho do Sofrimento (sob os cuidados de L. Sapienza), Roma 1983, pp. 136-137.

Card. José SARAIVA M., c.m.f. Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos

Fonte: Apostolado Sociedade Católica. Trecho de “O Evangelho do Sofrimento no Magistério e na Vida do Papa João Paulo II”.

Artigo publicado inicialmente pela Revista Shalom Maná

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