20/04/2020

Igreja, Corpo Místico de Cristo

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Contemplar Jesus, o Bom Pastor, que, indo em busca da ovelha perdida, vai voluntariamente ao encontro da morte para salvar seu rebanho. Contemplar Jesus que morre pelos que não o conhecem, nem o amam, antes o ofendem: “Enquanto éramos ainda pecadores. Cristo morreu por nós” (Rm 5,8).

IGREJA, CORPO MÍSTICO DE CRISTO

 

A vocação cristã é por sua natureza também vocação ao apostolado, conforme diz o Decreto Apostolicam Actuositatem[1]. Pelo simples fato de se tornar membro da Igreja pelo batismo, o cristão é chamado a colaborar para o bem e desenvolvimento dela. Como no organismo de um corpo vivo, nenhum membro se comporta de maneira meramente passiva, mas, unido à vida do corpo, também compartilha a sua operosidade. Da mesma forma, no Corpo místico de Cristo, que é a Igreja, todo o corpo ‘segundo a atividade destinada a cada membro, produz o crescimento do corpo’ (Ef 4,16).

Todo membro é vivo pela vida que recebe do corpo a que pertence e, compartilhando a vida, necessariamente compartilha também a atividade. Um membro totalmente passivo estaria morto ou, pelo menos, paralisado. Tal processo que se dá mecanicamente com os membros dos corpos físicos, como o corpo humano, deve realizar-se de modo consciente e responsável em cada pessoa batizada, membro vivo do Corpo místico de Cristo.

“Deus meu, grandíssima pena me dá a vista dos muitos que se condenam, especialmente dos que já pelo batismo eram filhos da Igreja. Sinto fortes ímpetos de salvar almas! Mil mortes padeceria, de muito boa vontade, tenho-o por certo, para livrar ainda uma só, dos grandíssimos tormentos do inferno. Que será ver uma alma condenada por toda a eternidade ao maior dos suplícios? Quem o poderá sofrer? Não há coração que o pondere sem ficar despedaçado. Com efeito, se ainda aqui, sabendo que o sofrimento, mais cedo ou mais tarde, há de ter fim, ou ao menos terminará com a morte, nos movemos a tanta compaixão, não sei como podemos sossegar, à lembrança desse outro mal que não acaba?”. (Relações espirituais, Santa Teresa de Jesus[2])

Todos os fiéis são congregados no povo de Deus e constituídos num só Corpo de Cristo sob uma só Cabeça. Quem quer que seja, todos são chamados a empregar todas as forças ao incremento e perene santificação da Igreja. O apostolado é participação na própria missão salvífica da Igreja. A este apostolado todos são destinados pelo próprio Senhor, através do batismo e da confirmação.

Cada um será apostolo segundo os dons recebidos de Deus e sua vocação pessoal, mas todos devem sê-lo, porque no batismo e na crisma todos receberam verdadeira investidura apostólica e receberam também a caridade que é a alma de todo o apostolado.

As formas e as responsabilidades serão diversas para os bispos, os sacerdotes, as pessoas consagradas a Deus, para os pais e os outros cristãos; todos, porém, são apóstolos porque todos indistintamente foram por Cristo assumidos e inseridos como membros vivos em seu Corpo Místico.

“Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; Se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; Ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria. O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor; Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração” (Rm 12, 5-12).

São todos apóstolos, ministros, servos de Deus, nos diz São Paulo, “cada um conforme o que lhe deu o Senhor”. Apenas emprestam a Deus sua atividade, mas quem verdadeiramente age é unicamente Deus. “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer! assim, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer” (1Cor 3,5-7).

Mesmo Paulo sendo o primeiro a gerar a comunidade de Coríntios na fé, não reclama direito algum sobre eles. Pertencem somente à Deus, à quem Paulo é um humilde colaborador. O apostolado não é obra humana, e sim divina! Cada um presta a Deus uma colaboração como humildes instrumentos, como dizia Santa Tereza de Calcutá: “Sou apenas um lápis nas mãos de Deus”.

“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado. Compreender, que ser compreendido. Amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive. Para a vida eterna. Amém”. (Oração de São Francisco[3])

Não se trata de instrumentos materiais, mas sim, vivos, pessoais. Hão de se por voluntariamente à disposição, empenhando todos os talentos recebidos Dele e, ao mesmo tempo, procurando sintonizar seu modo de pensar, de querer, de agir com o modo divino, isto é, com o plano salvífico de Deus, com sua vontade de reunir todos os homens.

Não há colaboração eficaz sem sintonia profunda, sem união íntima entre os colaboradores e os promotores da obra de apostolado, tanto mais quanto de caráter eminentemente espiritual, e quem colabora traz a quem dirige a força e a fecundidade de seu trabalho.

Jesus é a videira, o apóstolo, o galho, e só dará fruto em proporção da união com Cristo, união que deve criar afinidade de sentimentos, de vontades, de intenções. É transformação interior, fruto do amor, pois a tendência do amor é tornar semelhantes os que se amam. O coração de Cristo transborda de amor para com todos os homens que quer salvar a todo custo! Semelhante ao Seu deve ser o coração de cada cristão.

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra”. (Fl 2,5-10)

Contemplar Jesus, o Bom Pastor, que, indo em busca da ovelha perdida, vai voluntariamente ao encontro da morte para salvar seu rebanho. Contemplar Jesus que morre pelos que não o conhecem, nem o amam, antes o ofendem: “Enquanto éramos ainda pecadores. Cristo morreu por nós” (Rm 5,8).

“Por isso ouvi, pastores, a palavra do Senhor: Por minha vida, diz o Senhor Deus” (cf. Ez 34,7). “Vede por onde começa. Como por um juramento de Deus, um testemunho de sua vida: Por minha vida, diz o Senhor. Os pastores morreram, mas as ovelhas estão em segurança; o Senhor vive. Por minha vida, diz o Senhor Deus. Quais os pastores que morreram? Os que procuravam seu interesse, não ode Jesus Cristo. Haverá então e se poderão encontrar pastores que não busquem o que é seu, mas o que pertence a Jesus Cristo? Sem dúvida alguma, haverá e decerto se encontrarão; não faltam nem faltarão jamais”. (Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho[4], bispo – 46,18-19).

É desconcertante a realidade, e faz parte do ser de Deus, para o coração de Cristo, homem algum é estranho, ninguém é indiferente, ninguém inimigo, por serem todos criaturas retiradas do nada pelo amor infinito do Pai e, por conseguinte, objetos do amor misericordioso do Filho.

O fundamento de qualquer apostolado não será uma teologia abstrata, e, sim, a compreensão viva, íntima do amor de Deus, do amor de Cristo. Somente uma experiência pessoal com a pessoa de Jesus Cristo poderá nos levar a um empolgante caminho rumo ao céu.

Enquanto peregrinamos aqui poderemos dizer: “o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1Jo 1,3). Deus te abençoe e Maria te guarde!

 

Diácono Durval Filho

Consagrado da dimensão de Aliança da Comunidade Mariana Boa Semente

Missão Banabuiú

[1] Decreto sobre o Apostolado dos leigos, do Concílio Vaticano II.

[2] Foi uma freira carmelita, mística e santa católica do século XVI, importante por suas obras sobre a vida contemplativa através da oração mental e por sua atuação durante a Contra Reforma. Foi também uma das reformadoras da Ordem Carmelita e é considerada co-fundadora da Ordem dos Carmelitas Descalços, juntamente com São João da Cruz.

[3] Frade católico da Itália. Depois de uma juventude irrequieta e mundana, voltou-se para uma vida religiosa de completa pobreza, fundando a ordem mendicante dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos, que renovaram o Catolicismo de seu tempo. Com o hábito da pregação itinerante, quando os religiosos de seu tempo costumavam fixar-se em mosteiros, e com sua crença de que o Evangelho devia ser seguido à risca, imitando-se a vida de Cristo, desenvolveu uma profunda identificação com os problemas de seus semelhantes e com a humanidade do próprio Cristo. Sua atitude foi original também quando afirmou a bondade e a maravilha da Criação num tempo em que o mundo era visto como essencialmente mau, quando se dedicou aos mais pobres dos pobres, e quando amou todas as criaturas chamando-as de irmãos. Alguns estudiosos afirmam que sua visão positiva da natureza e do homem, que impregnou a imaginação de toda a sociedade de sua época, foi uma das forças primeiras que levaram à formação da filosofia da Renascença.

[4] Foi um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo cujas obras foram muito influentes no desenvolvimento do cristianismo e filosofia ocidental. Ele era o bispo de Hipona, uma cidade na província romana da África. Escrevendo na era patrística, ele é amplamente considerado como sendo o mais importante dos Padres da Igreja no ocidente. Suas obras-primas são “A Cidade de Deus” e “Confissões”, ambas ainda muito estudadas atualmente.

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