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06/02/2015

Enfrentar a dor

Uma situação desagradável, um certo mal-estar, dor física, sofrimento psíquico, incerteza sobre o futuro…

Uma situação desagradável, um certo mal-estar, dor física, sofrimento psíquico, incerteza sobre o futuro… Todas essas coisas são condições potenciais para que o sofrimento exista, mas não são, em si, a dor de fato. O modo como reagimos a esses fatores é que determina a intensidade do nosso sofrimento.

Tanto a criança como o adulto sofrem quando machucam o pé, por exemplo. Mas reagem de maneiras diferentes. O adulto tem uma visão do mundo na qual essa sensação de dor é reconhecida e assimilada: “É bobagem, passará”. Para a criança é bem diferente. Como lhe falta uma visão onde esteja prevista a possibilidade de uma topada no dedão, ela se identifica com a dor e experimenta uma verdadeira aversão por esta. Coloca-se em intenso conflito com a realidade. Essa resistência é a origem do sofrimento. As lágrimas continuam a cair mesmo depois que a dor passa; sua reação, geralmente, é correr para os pais em busca de consolo.

Vejamos um outro exemplo: duas mulheres estão em trabalho de parto. Naturalmente, ambas gritam de dor. Mas para uma delas esse momento representa o anúncio da chegada do filho tão esperado e faz parte do incrível mistério da vida. A dor a preenche não de sofrimento, mas de alegria. Mais do que nunca, sente-se viva, em profunda harmonia com a própria natureza. Até recusa um analgésico que o obstetra oferece. Já a outra mulher começou a ter medo do parto desde o instante em que ficou sabendo que estava grávida. Quando as dores começam, ela é incapaz de “administra-las” e as transforma em uma fonte de sofrimento que não lhe permite fazer uma experiência de alegria plena. Não hesita em aceitar o analgésico.

Quase todos nós, condicionados pela mentalidade corrente, fazemos de tudo para evitar a dor e… continuamos a sofrer inutilmente, a carregar um sofrimento estéril.

Quando chega o momento de enfrentar a dor, os sentimentos dolorosos que queríamos evitar certamente virão, mas devemos procurar sofrer de maneira fecunda. Impõe-se, então, uma escolha: ou aproveitar a oportunidade para reconhecer o próprio sofrimento, atravessar as experiências dolorosas, compreender o seu significado e integrá-las na própria personalidade, ou tentar evita-las, uma alternativa trágica que geralmente custa muito caro.

Há uma lei na psicologia segundo a qual “quem tem medo de sofrer acaba sofrendo de medo”. De fato, quando experimentamos uma dor intensa – física ou psicológica –, ela toma inteiramente a nossa atenção. Fica difícil lembrar de quando não sofríamos e fica difícil imaginar que podemos voltar a vivenciar situações e momentos positivos. É como se a dor apagasse o passado e o futuro, e como se a sua capacidade de dominar a nossa atenção nos impedisse de perceber que, na verdade, ela não é constante: ela vem de maneira cíclica. A mesma coisa podemos dizer dos sentimentos dolorosos. Eles podem se tornar tão intensos, que evitá-los passa a ser a prioridade absoluta de quem sofre.

Na nossa sociedade, a dor – como todas as experiências humanas – é amplificada pelos fantasmas psíquicos e culturais e pelo medo do futuro. São receios do tipo: “A dor será intensa? Até quando vai durar? Será que vai aguentar?”

Quanto mais enfrentarmos a dor e a vencermos, perdendo aos poucos o medo, mais nos fortaleceremos através da superação da experiência dolorosa. O que pode nos arrasar, o que pode nos aniquilar ao invés de nos fortalecer é a dor sem esperança.

Somente aceitando a dor podemos comprovar que a dor completa o seu ciclo, alternando-se em intervalos menos intensos, que nos permitem recuperar as forças, recobrar a coragem, lembrar que tudo passa. Nesses momentos ajuda muito recorrer a afirmações positivas como: “Passará”, “o que sinto não é o que sou”, em vez de nos concentrarmos em pensamentos negativos do tipo: “Isso nunca vai acabar”, “não aguento mais” ou “estou arrasado”.

Em síntese, aquilo que conta não é tanto sofrer, mas saber sofrer, ou seja, aceitar a dor como ela é, sem impor obstáculos, reservas, nem interpretações. Desse modo, paradoxalmente, a dor muda de figura, porque não há mais o desgaste da luta, da resistência, do tormento, da rebelião. Enfim, a regra de outro é acolher a dor, mesmo quando ela for misteriosa, quando parecer absurda e difícil de compreender. E aceitar também a nossa relutância m aceitá-la.

Mas não nos esqueçamos de que a dor nos torna mais honestos, mais sinceros, revelando sem dó nem piedade as chagas mais recônditas da nossa pessoa.

Essa honestidade é também a base da simpatia e do afeto que sentimos em relação às pessoas que sofrem. Ela torna simpático o sofredor porque a dor dá autenticidade ao ser humano. E a palavra de ordem para conquistar essa autenticidade é “encarar”, não desviar o olhar, porque quando nós vemos o sofrimento como ele é, fica mais fácil superá-lo.

A dor é inevitável. Mas, como diz o poeta alemão Hölderlin, “onde está o perigo, está também a salvação”. A psicologia, por sua vez, afirma que onde existe a dor, existe a salvação; basta transformar essa dor em amor.

Pasquale Iónata

Fonte: Revista Shalom Maná/ Form jun 2002

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