03/11/2015

Em que Deus acreditamos?

por Andréia Gripp Missionária da Comunidade Católica Shalom

Você já se perguntou em que deus tem acreditado? E já perguntou, no seu trabalho, família, comunidade, em que deus as pessoas acreditam? Parece estranho fazer essa pergunta? Mas não é. Faça a experiência e verá que a pergunta não é tão absurda quanto parece à primeira vista. Sabemos que a fé, a crença em […]

Você já se perguntou em que deus tem acreditado? E já perguntou, no seu trabalho, família, comunidade, em que deus as pessoas acreditam? Parece estranho fazer essa pergunta? Mas não é. Faça a experiência e verá que a pergunta não é tão absurda quanto parece à primeira vista.

Sabemos que a fé, a crença em um deus, é o centro de toda religião. Como cristãos, o centro de nossa identidade deve ser a fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

Não pode haver reducionismo da fé cristã, mas sim, a vivência ainda mais profunda e radical dela: se a fé cristã é trinitária, os cristãos não podem abrir mão de professar as três pessoas da Santíssima Trindade, sob pena de renegar-se a si mesmo.

Mas, pensemos bem: será que todos os cristãos têm uma fé trinitária? Faça uma nova experiência, pergunte a você, e as pessoas com quem você convive: “quem é Deus Pai, quem é Jesus e quem é o Espírito Santo? Como eles se relacionam entre si? Como se relacionam conosco? Como agem no mundo e, qual o papel das pessoas da Santíssima Trindade na história da salvação?”. Com certeza você vai ficar espantado com as respostas e verá que muitos ainda não deixaram a fé imatura e superficial, porque simplesmente ainda não tiveram um entendimento sobre a Trindade e, portanto, também não tiveram uma experiência real com o Deus Uno e Trino.

Para mudar essa situação é preciso desenvolver um discurso que nos leve a uma experiência trinitária e nos livre da tentação do individualismo e do racionalismo; que nos abra ao mistério do outro e nos leve a transmitir com a nossa vida e nossa história a experiência do Deus Ágape, que caminha conosco e conosco escreve a nossa história e a história da humanidade. Isso vai além, muito além, das difíceis fórmulas filosóficas e teológicas do dogma da Trindade.

Questões fundamentais

A linguagem cristã sempre esteve permeada e penetrada pela revelação trinitária de Deus. Mas, como anunciar o Deus Uno e Trino no mundo plural em que vivemos hoje, onde o homem emancipado “privatizou” a fé e criou um supermercado espiritual, cheio de teísmos (crença num deus como entidade superior, sem nome e identidade), deísmos (crença num deus como arquiteto universal que põe o mundo em movimento, mas não se relaciona com ele nem se revela) e monoteísmos reducionistas (crença num único deus, um tanto despersonalizado, sem rosto, sem nome, senhor e dominador do cosmo e da história)?

Hoje a pergunta fundamental a ser respondida pela nova evangelização, não é tanto o fato de Deus existir ou não, mas, “De que Deus estamos falando? O que significa para nós a existência de Deus?”.

Anunciamos Jesus Cristo. Mas, neste contexto plural e confuso, não podemos falar de Jesus Cristo sem o contextualizar na dinâmica da Trindade, sob o risco de não estarmos fazendo uma verdadeira evangelização.

Professar a fórmula de fé de que Deus vive e se revela e pode ser experimentado e conhecido como Pai, Filho e Espírito Santo deve se verificar na realidade do homem Jesus de Nazaré, na sua encarnação, vida, morte e ressurreição, assumidas, afirmadas e confirmadas por Deus, seu Pai. “Jesus é o Filho de Deus”. Esta é a afirmação fundamental da fé cristã.

Anunciar a Trindade

É impressionante perceber como muitas pessoas que se dizem católicas chegam à comunidade com um distanciamento de Deus Pai, fruto de um relacionamento superficial, com um “Deus de barba branca que mora lá no céu”. Deus Pai, para eles, é aquele Ser Supremo, onipresente, mas distante…

A pessoa do Espírito Santo é, para alguns, totalmente desconhecida (às vezes só identificada como a pomba citada no batismo de Jesus e as línguas de fogo, em Pentecostes). Para os que têm uma experiência mais carismática, é definido como aquele que nos leva a Deus, mas é, infelizmente,algumas vezes mais identificado com as sensações espirituais que concede ao orante. A presença do Espírito é fatalmente identificada com um arrepio que se sentiu na oração, uma emoção, um calor…

Esta realidade nos remete a uma grande responsabilidade: quando não anunciamos um Deus Trindade não somos fiéis à revelação bíblica. Corremos o risco de supervalorizar uma das pessoas da Santíssima Trindade em detrimento das outras e criar uma grande distorção na vida de fé. O Deus da Revelação, que devemos anunciar em nossa evangelização, é a Santíssima Trindade: mistério de comunidade das pessoas divinas, de salvação, de comunhão e de amor.

Para a nossa salvação

Falar de um Deus em três pessoas só é possível pelo fato dEle ter se revelado a si mesmo como Trindade. E, Deus não se revela para nos dar informações intelectuais sobre si próprio. Ele só se revelou e se revela,falou e fala sobre si mesmo para nos salvar. Por isso, no anúncio da Boa Nova,é preciso estabelecer uma relação inseparável entre Cristologia, Trindade e Soteriologia (salvação). A Trindade é mistério, e mistério de salvação para nós.

“O mistério de Deus em si mesmo e o mistério da nossa vida em graça são um só e mesmo mistério. Deus não é outra coisa senão aquilo que Ele revela no seu agir em favor de nós, embora o que podemos perceber do seu agir por nós não esgote aquilo que Ele é em si mesmo” (afirmam os teólogos Maria Clara Bingemer e Vitor Galdino, no livro “O Deus Trindade: A vida no coração do Mundo”).

Como sabemos que isso é verdade? Lendo a Bíblia, escutando a Igreja e estando atentos à experiência de Deus em nós e nas outras pessoas.Porque o Espírito Santo nos diz e ensina a dizer Abbá, Pai (Rm 8, 15; Gl 4,6) e Jesus é o Senhor (1Cor 12,3). É o Espírito Santo quem nos leva à experiência e ao conhecimento de Deus-Pai e Deus-Filho. É no e pelo Espírito que podemos refletir sobre essa experiência de chamar Deus de Pai e Jesus de Senhor. É no e pelo Espírito que podemos transmiti-la aos outros de maneira coerente e inteligível.

A força do testemunho

Segundo teólogos, filósofos, e sociólogos, vivemos num tempo marcado pela “crise da modernidade” (ou pós-moderno, como alguns chamam). Mas oque significa isso? Bem, para entender esse termo, é preciso saber que a modernidade foi o período histórico em que a concepção do mundo passou de teocêntrica (Deus no centro de todas as coisas) para antropocêntrica (tendo o homem como sujeito de todas as coisas). Foram séculos de história da humanidade marcados pela supervalorização da razão em detrimento da emoção e do espiritual, fundamentado no cogito de René Descartes: penso, logo existo. É a partir dessa época histórica que a ciência se emancipa da teologia e passa a combatê-la.

Essa autonomia humana, como que num ressurgir da tentação de Adão, que queria ser como Deus, distanciou o homem de seu criador e criou grandes dificuldades para a evangelização.

Bem, a crise da modernidade chega com a crise do racionalismo e, como que numa reação, com a supervalorização das emoções, do subjetivismo, do espiritualismo. Se por um lado podemos nos alegrar com o total fracasso da afirmação nefasta de Nietzsche (aquele que afirmou que Deus morreu), por outro nos assustamos com o crescimento de seitas e correntes filosóficas da Nova Era, que igualmente ao racionalismo, afastam o homem do verdadeiro Deus, o Deus-Trindade, que se relaciona comigo pessoalmente e por mim se encarnou, morreu e ressuscitou.

No mundo pós-moderno a afetividade está supervalorizada e a subjetividade impera e reina, colocando graves questões para a fé trinitária,pois se vai substituindo o Deus Trinitário, bíblico, pelo Deus light. O Deus bíblico impulsiona o ser humano a ser sujeito transformador da história,enquanto o Deus light não o questiona, é inebriante e o faz experimentar sensações que “elevam” a alma.

Resta-nos responder à pergunta: O que é para o mundo hoje a existência de Deus? Se esta pergunta for feita a várias pessoas numa rua de um grande centro urbano, haverá muitas respostas diferentes. No ambiente em que vivemos, sem sombra de dúvidas, será o que nós, cristãos, conseguirmos transmitir com a nossa vida. Não conhecemos Deus através de fórmulas teológicas, nem podemos transmiti-lo desta forma, também.

Por isso, se queremos realmente evangelizar, precisamos converter a nossa práxis. O que significa isso? Significa que precisamos fazer as obras de Deus (Jo 3,21. 6,28. 7,17). Afirma a teóloga Maria Clara Bingemer: “Se é o Espírito do próprio Deus que está em nós, e se nos deixamos mover e guiar por ele, tudo que fizermos será obra Dele em nós e estaremos espalhando pelo mundo as marcas do próprio Deus que age por meio de nós”.

“Nosso encontro com Deus é um acontecimento radical. Só podemos nos relacionar, pensar e falar sobre ele, deixando-nos surpreender e questionar radicalmente por ele”, continua a teóloga.

Para que esse encontro aconteça, faz-se necessário acolher humildemente, na fé, na escuta, a Revelação Divina, na qual Deus se aproxima de nós e apresenta seu Mistério de Pai, Filho e Espírito Santo, de forma transformadora e comprometida com a nossa história e, a partir dela, com a história da humanidade.

Andréia Gripp
Missionária da Comunidade Católica Shalom

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