12/07/2019

Do chocolate à sopa de cebola

por Boa Semente

Teresinha certamente foi fruto de um lar que sabia fincar nesse barco, mais do que qualquer outra coisa, uma bandeira da pátria verdadeira, o céu. Santa Zélia e São Luís, rogai por nós!

Quando iniciei a leitura das obras completas de Santa Teresinha, confesso que no meu coração havia um preconceito com aquela menininha narrada na biografia da florzinha do Carmelo. Aparentava um ar mimado e melancólico na família que dentro de mim trazia um certo afastamento e ao mesmo tempo curiosidade. Como aquela rosa cercada por uma redoma de proteção pelas irmãs e pelo seu rei virou uma tão grande santa? Não precisou de muito tempo pra eu compreender os preconceitos que existiam dentro de mim.

Primeiramente que se Santa Teresinha não nasceu a santa que eu projetava e ouvia falar, ela nasceu em uma família que prezava pela santidade como prioridade. Santa Teresinha não tinha a autonomia montessoriana que eu hoje tanto ouço falar. Longe das caricaturas educacionais que hoje são projetadas pra uma criança, naquela época, ela, já com dez anos, não sabia pentear os cabelos sozinha, chorava por absolutamente tudo e resistia em dormir sozinha, obrigando Paulina a ficar no seu quarto. Era livre nas brincadeiras com as irmãs, no chocolate que o pai lhe dava ao acordar e no tempo que seu Rei se entretinha brincando com ela, sua pequena Rainha.

Logo percebi que a prioridade no lar da Família Martin não era que as crianças deixassem os mimos da infância em busca de autonomia, mas tão cedo possível fossem embutidos nas filhas os princípios vividos naquele lar: soberania de Deus, confiança na sua Providência e abandono na Sua vontade. No decorrer da Obra, esses princípios têm traços bem claros: o batismo realizado tão logo que os filhos nascessem; a seriedade com que se apresentavam as realidades celestes – a ponto de Santa Zélia preocupar-se com o fato de uma das filhas de apenas quatro anos ter falecido sem confessar uma mentira que foi repelida por ela -; a prática da esmola que era vivenciada e incentivada pelos pais; o terço de pequenos sacrifícios que a mãe exercitava diariamente e, a meu ver, foi um tijolo para construção da teologia da pequena via de Santa Teresinha; o despertar das filhas que antes do “bom dia” já eram questionadas se já haviam oferecido seus corações a Jesus, dentre tantas outras pequenas práticas que podem ser citadas aqui.

Na sua biografia, os traços chorosos e infantis começam a se desfazer de verdade quando Santa Teresinha narra o choque que teve ao escutar seu pai comentando com Celina que no seu décimo terceiro Natal não iria mais ganhar presentes, e que aí teve uma intervenção divina em que ela, não obstante sua melancolia, cresceu.

Aos poucos o clima de austeridade e disciplina é animado no lar, desde a sopa de cebolas no café da manhã até a renúncia do próprio conforto do lar pelas filhas. A mulher de quinze anos é amadurecida na decisão e busca de sua vocação que lhe faz insistentemente recorrer a grandes autoridades eclesiais e que lhe fará deixará o lar de forma precoce.

Essa ascese continua na vida da grande Santa de forma heroica, no Carmelo, sem os afagos e conversas alegres do lar mesmo na companhia das irmãs, sem os regalos do mundo e até mesmo sem as consolações de Deus, culminando no fim da sua vida com a noite escura da fé, em que com mais intensidade pôde brilhar em sua vida a virtude da caridade, como um farol direcionando seu barquinho para o céu. Teresinha certamente foi fruto de um lar que sabia fincar nesse barco, mais do que qualquer outra coisa, uma bandeira da pátria verdadeira, o céu. Santa Zélia e São Luís, rogai por nós!

Que Deus os abençoe e Maria os guarde!

Karolyne Araújo do Nascimento Silva

Consagrada na dimensão de Aliança da Comunidade Mariana Boa Semente

Missão Quixeramobim (Sede)

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