26/04/2017

Coluna FÉ & CULTURA: O MUNDO SERÁ SALVO PELA BELEZA!

por Pe. Carlos Coutinho

Uma profunda reflexão sobre a beleza permite-nos manter acesa no coração de cada homem a chama que arde pelo Bem e pela Verdade última de sua existência, permite-nos trabalhar para resgatar o autêntico sentido do bem e da verdade do mundo, tão obscurecido por suas respectivas caricaturas (o mal e a mentira).

A palavra beleza tem sua origem na língua sânscrita: bete el za (o lugar em que Deus brilha). Indicando, portanto, um conceito religioso. No hebraico, o termo correspondente é a Shekhinah, designando a habitação ou presença de Deus.

A beleza é a expressão visível do bem, como o bem é a condição metafísica do belo. É por isso que os gregos cunharam uma locução que abraça os dois conceitos através da substantivação de dois adjetivos: καλὸς καὶ ἀγαθός (kalòs kai agathòs – kalòs => belo; agathòs => bom), dando origem a kalokagathía, isto é, belo e bom enquanto em posse de todas as virtudes.

O famoso escritor russo Dostoiévski (1821-1881) discorre longamente em seus romances sobre a beleza, que para ele constitui um enigma. A beleza ocupa um lugar especial em toda a sua obra, a qual possui um valor decisivamente espiritual.

É o próprio Dostoiévski a afirmar que a sua fé em Cristo passou pelo “cadinho” de todas as dúvidas e se fortaleceu no fogo. Em uma carta escrita à senhora Von Vizin, datada de fevereiro de 1854, encontramos esta belíssima passagem na qual descreve o seu “símbolo da fé”:

Este símbolo é muito simples; ei-lo: crer que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais razoável, de mais viril e perfeito do que o Cristo. […] E não basta; se me demonstrassem que Cristo está fora da verdade e efetivamente resultasse que a verdade está fora de Cristo, eu preferirei permanecer com Cristo que com a verdade. (DOSTOEVSKIJ, 1951, p.168-169, tradução nossa).

Em um de seus romances intitulado O Idiota, o príncipe Mínchkin (personagem principal) tem um colóquio com o jovem niilista Hippolit, doente de tuberculose e, por isso, já no fim de sua existência. O jovem lê um documento com o qual denuncia o destino que o proporcionou uma existência tão infeliz e como forma de protesto e vingança contra o seu destino decide pôr fim à própria vida. Mas antes de concretizar este gesto, que ao final fracassará por um motivo banal – a arma falha –, dirige-se ao príncipe, que o escuta com muita compreensão, com esta pergunta iluminante: “É verdade, príncipe, que uma vez disseste que o mundo seria salvo pela ‘beleza’? Senhores – exclamou, […] o príncipe sustenta que o mundo será salvo pela beleza. […] Que tipo de beleza salvará o mundo?” (DOSTOEVSKIJ, 1995, p. 518, tradução nossa). O príncipe não responde, permanece em silêncio próximo a ele; não um silêncio mudo, mas cheio de compaixão. Porém, se o príncipe Michkin não responde diretamente à pergunta, responde Dostoiévski com a história deste personagem que em sua mente deveria encarnar a figura de Cristo.

A salvação para Dostoiévski deveria vir de uma beleza encarnada e vivida no homem e não de uma beleza de tipo meramente estético ou superficial. Desse modo, a encarnação da beleza que salva o mundo é Cristo, através do qual pode ser novamente reestabelecida a imagem original do homem, de modo que “até mesmo no último homem, nas mais terríveis quedas do homem se mantêm a imagem e semelhança de Deus” (BERDJAEV, 2002, p.47, tradução nossa).

O Papa emérito Bento XVI, em sua Exortação Apostólica sobre a Eucaristia (Sacramentum Caritatis), corrobora o pensamento de Dostoiévski ao expor que a beleza é atributo do próprio Deus e da sua revelação afirmando que:

A revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com a beleza: é esplendor da verdade (veritatis splendor). […] Referimo-nos aqui a este atributo da beleza, vista não enquanto mero esteticismo, mas como modalidade com que a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor. […] No Novo Testamento, realiza-se definitivamente esta epifania de beleza na revelação de Deus em Jesus Cristo: Ele é a manifestação plena da glória divina. […] Mas, esta beleza não é uma simples harmonia de formas; ‘o mais belo dos filhos do homem’ (Sal 45/44, 3) misteriosamente é também um indivíduo ‘sem distinção nem beleza que atraia o nosso olhar’ (Is 53, 2). Jesus Cristo mostra-nos como a verdade do amor sabe transfigurar inclusive o mistério sombrio da morte na luz radiante da ressurreição. Aqui o esplendor da glória de Deus supera toda a beleza do mundo. A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal. (BENTO XVI, 2007, nº 35, p.56-57).

Uma profunda reflexão sobre a beleza permite-nos manter acesa no coração de cada homem a chama que arde pelo Bem e pela Verdade última de sua existência, permite-nos trabalhar para resgatar o autêntico sentido do bem e da verdade do mundo, tão obscurecido por suas respectivas caricaturas (o mal e a mentira). A crescente perda da capacidade de captar a autêntica e profunda beleza do ser traduz-se na miopia para a verdade e para o bem.

E provavelmente a grandeza de Dostoiévski esteja justamente em ter demonstrado como nas trevas resplandeça a luz, característica peculiar de sua obra. Neste ponto ele permanece para nós um excelente mestre, porque nos desafia a descobrir a luz nas trevas através de Cristo, a reconhecer a imagem e semelhança de Deus, e, portanto, sua beleza, em todos os homens. Neste sentido, a obra de Dostoiévski foi e continua sendo profundamente fecunda e inspiradora para uma necessária e contínua renovação cristã.

Pe. Carlos Coutinho

Sacerdote da Diocese de Quixadá – CE

Mestre em Filosofia pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino (ANGELICUM) de Roma

Professor dos cursos de Filosofia e Teologia da UNICATÓLICA de Quixadá.

 

REFERÊNCIAS:

 

BENTO XVI, Papa. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis: sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.

 

DOSTOEVSKIJ. Fëdor. L’idiota. Traduzione di Eugenia Maini ed Elena Mantelli. Milano: Mondadori, 1995.

 

______. Epistolario. Napoli: Edizioni Scientifiche Italiane, 1951.

 

BERDJAEV, Nikolaj. La concezione di Dostoevskij. Traduzione di Bruno Del Re. 3. ed. Torino: Einaudi, 2002. (Coll. Piccola Biblioteca Einaudi 161, Nuova serie, Saggistica letteraria e linguistica).

2 Comentários
  1. Iran Rodrigues disse:

    Então o Nosso catequista tbm é escritor. Pública mais. Use e abuse do talento q o Senhor lhe concedeu. Tenho profunda admiração e respeito pelo senhor.

  2. Washington disse:

    Belíssimo artigo!!

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