02/03/2015

A PRÁTICA DO JEJUM NA QUARESMA

por KARINE SUELANNE /Consagrada Comunidade Mariana Boa Semente

“Eis o tempo de conversão, eis o dia da Salvação. Ao Pai voltemos, juntos andemos. Eis o tempo de conversão!”

A PRÁTICA DO JEJUM NA QUARESMA

KARINE SUELANNE

Consagrada na dimensão de Aliança da Comunidade Mariana Boa Semente

Missão Quixeramobim – Sede

Psicóloga.

“Eis o tempo de conversão, eis o dia da Salvação. Ao Pai voltemos, juntos andemos. Eis o tempo de conversão!”

Este refrão, conhecido e cantado em nossas paróquias, sinaliza que estamos em um período importante, o tempo da Quaresma, que prepara o nosso coração para celebrar os mistérios pascais de Cristo. A tradição da Igreja nos ensina que os quarenta dias iniciados na quarta-feira de Cinzas e encerrados no domingo de Ramos, fazem memória dos quarenta anos que os hebreus vagaram pelo deserto junto com Moisés, como é relatado no livro do Êxodo, para alcançar a terra prometida, como também nos recordam os quarenta dias que Jesus passou em jejum no deserto (Cf. Mt 4,1-11), sendo ali tentado por Satanás, servido pelos anjos e preparado para iniciar sua vida pública.

Falando em jejum, anualmente ouvimos falar que a vivência quaresmal está baseada no tripé jejum-oração-caridade, e vamos aqui nos deter sobre a vivência do jejum, que às vezes gera dúvidas e concepções até equivocadas sobre como fazê-lo. Inicialmente pensamos no jejum como algo difícil, doloroso, um sacrifício que só os grandes místicos são capazes de fazer. Ao contrário, todos nós podemos jejuar, até mesmo os idosos, doentes, gestantes, mães que amamentam, pois ele não deve ser encarado desta forma negativa, pois assim, nunca daremos o primeiro passo. É importante que nos informemos sobre a forma correta de praticar e começar aos poucos, para que nosso organismo se adapte, de acordo com nossas condições de saúde.

Outro grande equívoco é que algumas pessoas fazem do jejum um teste de sobrevivência, como se fossem super heróis, para provar aos outros ou a si que conseguem passar mais tempo ou que conseguem realizar a modalidade mais difícil, passando o dia sem comer ou beber, chegando ao final do dia passando mal muitas

vezes. Na minha caminhada espiritual, o jejum sempre teve um significado importante para me fazer perceber os excessos adquiridos durante o ano, seja na alimentação, como também no comportamento, visto que ele tem me ajudado a lidar com as situações do cotidiano, me fortalecendo na luta contra o espírito deste mundo, contra a minha vontade, me ajudando a esperar o tempo de Deus, a Páscoa, a vitória nos tempos de espera da minha vida. O jejum particularmente tem me ajudado a esperar em Deus, por seu momento, para celebrar um tempo novo de graça.

O Catecismo da Igreja Católica nos orienta sobre o significado desta prática para o nosso crescimento espiritual, que não deixa de ser crescimento também humano, haja vista somos corpo, mente e espírito, e se crescemos de um lado, os demais crescerão juntos. §1969: “O Pai que vê o que está no segredo te recompensará” (cf. Mt 6,16-18). No Evangelho lido na quarta-feira de Cinzas, esta citação é feita, já para nos mostrar que o jejum é uma prática externa, mas com prioridade no interior, ou seja, para quê a necessidade de divulgar ou fazer “cara de tristeza” quando estamos jejuando?

Existem muitas outras formas do sujeito se exibir e chega até a ser cômico quando vemos pessoas que se dizem estar jejuando, mas que passam o dia reclamando de sua penitência! Não sabemos ao certo se é apenas o desconforto do corpo ou a vontade implícita de que as pessoas saibam e elogiem, simplesmente pelo fato de estarem jejuando. Jesus mesmo disse que estes já receberam a recompensa, a dos homens logicamente, agora a de Deus, pelo menos a misericórdia acredito que recebam. Um aspecto importante desta passagem é a vaidade, que impede uma verdadeira mudança e assim como o jejum, nenhum dos outros aspectos da vivência quaresmal, não deve ter um outro objetivo que não seja nos melhorar enquanto pessoas, do contrário, perde o sentido de cumpri-los, tornando-os vazios.

(CIC §1434): Ele é para nós uma penitência interior, sendo que a Quaresma é este tempo de penitência por excelência, que nos une ao Cristo que também jejuou no deserto, preparando-se para a sua missão salvadora. Sabemos que vivemos nestes tempos um constante combate espiritual. Se pelo nosso batismo e pelo sacramento do Crisma nos tornamos soldados de Cristo, o fato de estarmos fortalecidos para esta constante e iminente missão vem a ser de fundamental importância. Um soldado não

pode ir ao campo de batalha sem ter feito seu treinamento, sem conhecer as armas e suas capacidades e deficiências pessoais enquanto soldado e sem saber com quem está travando a luta, do contrário, cedo morrerá. Portanto, o jejum é a maneira de conhecermos melhor nosso corpo, nossas vontades humanas, de modo que, aprendendo a conter a nossa vontade de comer algo de que gostamos por algum tempo, nos fortalece para lidar com tentações maiores, que, uma vez fortalecidas por nossa concupiscência, podem nos levar ao pecado, que é morte certa de nossa alma.

(CIC §1438): A Igreja nos orienta momentos oportunos para a prática do jejum, de modo particular a Quaresma, por tudo o que citamos acima. Este momento nos apresenta não só o jejum de alimentos como uma penitência e este é um outro equívoco. Pessoas jejuam, mas continuam falando mal do próximo, dentre outros comportamentos, o que acaba invalidando a prática corporal, ou seja, seria melhor nem jejuar e buscar primeiramente a mudança, melhor dizendo, o jejum também deve ser dos comportamentos e posturas que não nos levam a um melhor relacionamento com Deus e com as pessoas.

(CIC §2043): O jejum é um mandamento da Igreja, que significa a preparação para as grandes celebrações litúrgicas, por isso nos orienta no 5º mandamento, que devemos nos abster de carne pelo menos na quarta-feira de Cinzas e na sexta-feira santa, orientando também sobre a importância de nos unirmos aos irmãos que sofrem por falta de alimento, o que deve nos instigar a nos desapegar de nossos excessos e repartir com quem precisa. Existem várias modalidades de jejum presentes no livro “Práticas de jejum”, de autoria do Monsenhor Jonas Abib, fundador da Comunidade Canção Nova, que de modo muito prático falar sobre os mesmos, incentivando a uma prática consciente, que visa nossa melhor relação com Deus e solidariedade com os necessitados. Que através destas palavras, possamos refletir melhor sobre nossa vida de intimidade com Deus, em meio as lutas do cotidiano e suplico ao Senhor, o Pai das Misericórdias que nos fortaleça na perseverança e que Maria rogue por toda a Igreja, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Abraço fraterno e mariano!

1 Comentário
  1. Myrella Martins disse:

    Muito bom!

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