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27/08/2020

A concepção do laicato na primavera do Concílio Vaticano II

A concepção do laicato na primavera do Concílio Vaticano II: um percurso histórico da igreja primitiva à primavera do concílio (PARTE 1)   Ailton Bento Araruna[1]   RESUMO: A concepção teológica de leigo passou por uma transformação desde o início da Igreja. Um termo já em uso na época, foi inserido na nomenclatura dos membros […]

A concepção do laicato na primavera do Concílio Vaticano II: um percurso histórico da igreja primitiva à primavera do concílio (PARTE 1)

 

Ailton Bento Araruna[1]

 

RESUMO: A concepção teológica de leigo passou por uma transformação desde o início da Igreja. Um termo já em uso na época, foi inserido na nomenclatura dos membros eclesiais. Com a primeira sistematização acerca do papel exercido dentro da Igreja, os fiéis foram classificados em Hierarquia, Religiosos e Leigos, foi também a primeira vez que se teve um olhar mais profundo sobre a estrutura eclesial. No percurso histórico, percebemos que a estrutura eclesial influencia na concepção teológica de leigo, tendo no Vaticano II a expressão mais próxima daquele presente nos primeiros anos da Igreja, os leigos participam do mistérios de Cristo.

 

Palavras-chave: Leigo. Laicologia. Concílio Vaticano II.

 

Introdução

 

Neste trabalho entenderemos a concepção teológica do laicato no Concílio Vaticano II, ou seja, elencar os elementos que constituem o núcleo teológico do laicato, quais são as afirmações essenciais sobre os cristãos leigos que fundamentam as reflexões da teologia do laicato. Como todo concílio se insere na Tradição da Igreja, é necessário procurar as raízes da doutrina conciliar sobre os leigos no período histórico precedente ao Vaticano II. No período que precedeu e sucedeu o Concílio Vaticano II houve intensa elaboração teológica sobre a teologia do laicato no universo católico.

O próprio tema evidencia a necessidade de considerar a teologia do laicato no conjunto da eclesiologia e consequentemente no conjunto da tradição cristã, uma vez que os leigos são uma constante, quantitativa e qualitativa, na história da Igreja. Há uma perspectiva formal dialética para a análise dos textos, porque neles há a convergência do contexto histórico e do contexto teológico.

O trabalho converge para a explicitação do núcleo teológico da laicologia. Primeiramente situa-se a questão da teologia do laicato no conjunto da eclesiologia, em dois momentos distintos: primeiro explicitando algumas questões preliminares sobre a constante presença dos leigos na Igreja, as razões históricas e teológicas pelas quais se deu a adoção do temos laikós na doutrina da Igreja; segundo, a situação do laicato no período que precede o Concílio Vaticano II, a partir do fenômeno da Ação Católica, a qual pressupõe o contexto histórico da modernidade e o modelo eclesiológico da Igreja como Sociedade Perfeita. Nessas circunstâncias competia à hierarquia mobilizar os leigos para colaborarem no apostolado da Igreja, de onde resultou a renovação teológica sobre o laicato que chega aos padres conciliares. Em segundo lugar, explicitou-se a doutrina atual sobre os leigos, situando-a no contexto da Igreja, no do Concílio Vaticano II, evidenciando alguns pressupostos teológicos sobre a identidade e missão da Igreja.

Contexto Histórico

 

Dentre os significados do termo leigo, a Igreja usa-o para distinguir os cristãos que não receberam a Ordem Sacra ou não professaram os Votos Religiosos. Contudo, é dever da teologia do laicato estudar o significado teológico deste termo dentro do ambiente eclesial. A especificidade desta teologia tem como objeto material todas as alusões aos leigos no caminhar da eclesiologia e como objeto formal o conjunto da teologia cristã, tendo como princípio supremo a Revelação de Deus.[2] Em suma, à eclesiologia tem a competência de fornecer os dados da fé (objeto material e formal) para a reflexão da teologia do laicato, visto que esta é apenas um recorte daquela, o lugar teológico por excelência (Cf. BOFF, 1994, p. 549). Dos dois objetos da laicologia percebemos uma relação dialética[3] entre Revelação (objeto formal) e História (objeto material), e respectivamente, entre Igreja e Sociedade[4].  Comparando os textos na perspectiva histórica do laicato (Cf. ALMEIDA, 2006, falta a pág) percebe-se que as variações do significado de leigo situam-se mais na ênfase dada à forma e ao grau de relações de cada um dos estados de vida eclesial (clérigos, religioso e leigos) num determinado momento histórico, assim como na concretização da missão da Igreja, e não apenas no núcleo teológico-dogmático (objeto formal) do laicato.

Essas diferenças confirmam a relação dialética entre Igreja e Sociedade, desta relação provém o predomínio de um paradigma[5] teológico em detrimento de outros, e o contexto vital das diferentes épocas, onde com suas características própria de origem política, econômica, social e cultural norteiam o modus vivendi de um período. Por conseguinte, a laicologia não trata apenas de uma questão teórica dogmática (objetivo formal), mas também do contexto vital (objeto material).

Em virtude dos paradigmas teológicos e o modus vivendi de uma época confluírem-se e manifestarem-se em diferentes eclesiologias, para prosseguir na concepção do núcleo teológico do laicato, é necessário encontrar dentro de toda a eclesiologia os elementos de origem teológica e os de origem histórica, mais uma vez a necessidade de compreendermos a relação dialética entre Revelação e História.  Desta compreensão resultam algumas questões preliminares para interpretar as subsequentes afirmações do Concílio Vaticano II sobre a teologia do laicato.

 

[1] Aluno do quinto semestre do Curso de Teologia no Centro Universitário Unicatólica, Quixadá-CE. E-mail: ailtonarquivos@gmail.com.

[2] Cf. ALSZEGHY, Z.; FLICK, M. Como se faz teologia: introdução ao estudo da teologia dogmática. São Paulo, Paulinas, 1979; HAMMES, Erico João. A epistemologia teológica em questão: da dor do mundo gestar o futuro. Perspectiva teológica, v. 39, p. 165-185, 2007.

[3] A palavra dialética tem sua raiz no conceito diálogo. Na história da filosofia recebeu diferentes significados, não sendo redutíveis uns aos outros. Todavia é possível distinguir quatro significados fundamentais, os quais têm origem em quatro doutrinas que os influenciaram: a dialética como métodos de divisão na doutrina platônica; a dialética como lógica do provável na doutrina aristotélica; a dialética como lógica na doutrina estóica e a dialética como síntese dos opostos na doutrina hegeliana. Em geral, pode-se dizer que dialética “é o processo em que há um adversário a ser combatido ou uma tese a ser refutada, e que supõe, portanto, dois protagonistas ou duas teses em conflito; ou então que são um processo resultante do conflito ou da oposição entre dois princípios, dois momentos ou duas atividades quaisquer.” (Cf. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, p. 315). A perspectiva dialética na teologia recebeu diferentes denominações: teologia dialética, teologia da crise e teologia da Palavra. Trata-se de um movimento de origem européia em reação aos princípios do liberalismo na teologia. São expoentes: Karl Barth, Friedrich Gogarten, Rudolf Bultmann e outros. Apresenta os seguintes princípios fundamentais: afirmação de que a própria Revelação tem estrutura dialética, pois mantém unido elementos que se excluem reciprocamente: Deus e homem, eternidade e tempo, revelação e história. Segundo, os próprios enunciados teológicos devem seguir esta metodologia dialética, exprimindo tanto a posição quanto a negação. (Cf. GIBELLINI, R. A teologia do século XX, p. 13-32). O que precede está presente num dos movimentos propulsores do Concílio Vaticano II, a Nouvelle Théologie. Este movimento articulou a fé com a história e desenvolveu uma verdadeira teologia da história. Redescobriu a tradição cristã, relendo a revelação em seu dinamismo histórico e renovando integralmente a metodologia teológica ao sair da via dedutiva e ao assumir a via indutiva de produção teológica. Na relação dialética entre mistério e história, determinou-se a o sentido da história pela valorização da liberdade humana em consonância com o Mistério de Deus nos acontecimentos históricos. Trata-se da verificação da orientação escatológica da história – sua temporalidade e sua eternidade – já realizados na ressurreição de Cristo. (Cf. GONÇALVES, P. S. L. A teologia do Concílio Vaticano II e suas conseqüências na emergência da Teologia da libertação, p. 72,77). A dialética na teologia fornece, na medida em que equaciona Revelação e História, Igreja e Sociedade os elementos para se compreender a evolução do dogma. (Cf. WALTER, Peter. Dogma, p. 568-573).

[4] “O único Mediador Cristo constitui e incessantemente sustenta aqui na terra Sua santa Igreja, comunidade de fé, esperança e caridade, como organismo visível pelo qual difunde a verdade e a graça a todos. Mas sociedade provida de órgãos hierárquicos e o corpo místico de Cristo, assembléia visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja enriquecida de bens celestes, não devem ser considerados duas coisas, mas uma só realidade complexa em que se funde o elemento divino e humano.” (LG 8a) Esta questão procede da própria identidade da Igreja, como observa Hans Küng: “A distinção entre essência e forma não é uma distinção real, mas sim conceitual. Essência e forma não se comportam como a amêndoa e sua casca. Uma essência sem forma é tão informe e irreal como uma forma sem essência: seria ilusória, e por isso mesmo também irreal. Só quando a essência da Igreja é vista nem por detrás nem por cima, mas na sua forma histórica, é que estaremos em face da Igreja real.” KÜNG, H. A Igreja, p. 15.

[5] Para Thomas Kuhn (1962), paradigma é um conjunto de valores, métodos e de teorias comungadas por um grupo de pessoas (por um grupo da comunidade científica) usados para o conhecimento de diferentes tipos de fenômenos. Cf. ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia, p. 864; LIBÂNIO, J. B. Diferentes paradigmas na história da teologia, p. 35-48.

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