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29/03/2021

O Purgatório e o Magistério

Percebemos que desaparece a menção do purgatório como lugar e não se fala em fogo. Também se fala expressamente como sufrágios pelos defuntos as obras de caridade que também São Tomás de Aquino considerava apropriadas: a Missa, a oração e a esmola.

Hoje iremos conhecer um breve histórico de como a doutrina do purgatório foi firmada dentro da igreja pelo seu magistério. Desde os primeiros cristãos, eram oferecidos orações pelos defuntos, porém dentro do magistério o primeiro marco de referência é uma carta escrita pelo Papa Inocêncio IV (1254) ao bispo de Túsculo, legado da Sé Apostólica junto dos gregos. Esta carta, no referente ao Purgatório declara que,

“Também os próprios gregos, segundo o que se diz, segundo a verdade e sem nenhuma dúvida creem e afirmam que as almas daqueles que receberam, mas não cumpriram a penitência, ou então os que morreram sem pecado mortal, mas com pecados veniais ou de pouca monta, são purificados depois da morte e podem ser ajudados com as orações de sufrágio da Igreja. Ora, porque dizem que o lugar de tal purificação não lhes foi indicado com o nome preciso e peculiar pelos seus doutores, Nós, que segundo a tradição e autoridade dos santos Padres «o» denominamos de “purgatório”, queremos que, de agora em diante, seja por eles chamado com este nome”.

Depois desta epístola, temos a famosa Profissão de Fé de Miguel Paleólogo, redigida no Concílio II de Lyon (1274). Que diz:

“ se tiverem falecido em verdadeira penitência na caridade, antes de haver satisfeito com frutos dignos de penitência pelo que cometeram ou deixaram de fazer, as suas almas são purificadas depois da morte, com penas purificatórias, ou seja, catartérias, como nos aclarou frei João; e para aliviá-las de penas de tal género são-lhes úteis os sufrágios dos fiéis vivos, quer dizer, os sacrifícios das missas, as orações, as esmolas e outros exercícios de piedade que os fiéis costumam fazer em prol de outros fiéis, segundo as orientações da Igreja”.

Percebemos que desaparece a menção do purgatório como lugar e não se fala em fogo. Também se fala expressamente como sufrágios pelos defuntos as obras de caridade que também São Tomás de Aquino considerava apropriadas: a Missa, a oração e a esmola.

No Concílio de Florença (1439), a Bula sobre a união com os gregos Laetentur caeli professa que:

“Igualmente, se os verdadeiros penitentes faleceram no amor de Deus, antes de terem satisfeito com frutos dignos de penitência o que cometeram ou deixaram de fazer, suas almas são purificadas depois da morte com penas do purgatório; e para que recebam alívio destas penas ajudam-nos os sufrágios dos fiéis viventes, como o sacrifício da missa, as orações, as esmolas, e outras práticas de piedade que os fiéis costumam oferecer pelos outros fiéis, segundo as disposições da Igreja”.

No Concílio de Trento (1545-1563) trata do Purgatório nos seguintes decretos: Decreto sobre a Justificação, Decreto sobre a Doutrina do Santo Sacrifício da Missa e no Decreto sobre o Purgatório. Seguem alguns trechos:

 “ igualmente na satisfação, por jejum, esmolas, orações e outras práticas piedosas de vida espiritual, não certamente por causa da pena eterna, que, junto com a culpa, é perdoada mediante o sacramento ou o desejo do sacramento, mas por causada pena temporal”.

“Se alguém disser que a qualquer pecador penitente, depois que recebeu a graça da justificação, é perdoada a culpa e cancelado o débito da pena eterna, de modo tal que não lhe fique débito algum de pena temporal para descontar neste mundo ou no futuro, no purgatório, antes que lhe sejam abertas as portas do reino dos céus; seja anátema”.

Na mesma linha doutrinal, o tema do Purgatório é invocado no Decreto sobre a Doutrina do Santo Sacrifício da Missa:

“Por isso, segundo a tradição dos Apóstolos, é legitimamente oferecida não só pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades dos fiéis vivos, mas também pelos falecidos em Cristo ainda não plenamente purificados”.

Logo a seguir ao encerramento do Concílio, o Papa Pio IV (1559-1565) na Bula Iniunctum nobis  professa veementemente: “Sustento com constância que existe o purgatório e que as almas ali prisioneiras são ajudadas pelos sufrágios dos fiéis”. Em contrapartida, os papas Gregório XIII (1572-1585) e Bento XIV (1740-1785) em decretos dirigidos aos cristãos orientais exponham a doutrina do Purgatório parafraseando o texto aprovado no Concílio de Florença, na Bula Laetentur caeli (1439).

No Concílio Vaticano II, a Constituição Dogmática Lumen Gentium e na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, foram documentos relevantes quanto a temática do purgatório. Em relação ao primeiro documento, a temática do Purgatório expõe-se no capítulo VII, intitulado “A Índole Escatológica da Igreja Peregrina e a Sua união com a Igreja celeste”. Neste capítulo é realçada a relação da comunhão dos santos, como se opera a interação entre os cristãos em peregrinação, com aqueles que já se encontram na pátria do amor trinitário e com aqueles que realizam a sua fase final de purificação.

“Deste modo, enquanto o Senhor não vier na Sua majestade e todos os Seus anjos com Ele (cfr. Mt 25,31) e, vencida a morte, tudo Lhe for submetido (cfr. 1 Cor 15, 26- 27), dos Seus discípulos uns peregrinam sobre a terra, outros, passada esta vida, são purificados, outros, finalmente, são glorificados e contemplam «claramente Deus trino e uno, como Ele é»; todos, porém, comungamos, embora em modo e grau diversos, no mesmo amor de Deus e do próximo, e todos entoamos ao nosso Deus o mesmo hino de louvor. Com efeito, todos os que são de Cristo e têm o Seu Espírito, estão unidos numa só Igreja e ligados uns aos outros n ́Ele (cfr. Ef 4,16) ”.

O texto conciliar ressalta a permanência dos vínculos espirituais entre os cristãos que vivem nos diferentes estados escatológicos; aborda diretamente a interação entre os cristãos peregrinantes com os cristãos purificantes. Os Padres Conciliares sublinham a origem primitiva da oração pelos defuntos como núcleo primitivo desta doutrina e o multisecular hábito de oferecer sufrágios pelos defuntos. Reafirma a validade da doutrina emanada pelos Concílios antecessores. Na linha já apontada pelos concílios precedentes do Concílio Vaticano II, alerta para a prudência na hora de explicitar este mistério aos crentes, evitando-se visões distorcidas e imaginativas. No ensinamento conciliar optou-se pelo uso do vocábulo purificação em vez do substantivo Purgatório, com a finalidade de instruir os fiéis para pensar o Purgatório, mais como um estado ou etapa do que um lugar espaço-temporal.

No pontificado do papa João Paulo II, o Catecismo da Igreja Católica, dado no dia 11 de outubro de 1992 salienta as principiais verdades de fé relativas ao mesmo. “Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu”. Os principais elementos doutrinais relativos ao Purgatório são: a sua existência, a necessidade de integralidade diante de Deus, hábitos salutares para o sufrágio das almas do Purgatório (Eucaristia, oração, esmola, indulgências e as obras da caridade). O Catecismo afirma a unanimidade entre a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura na exposição da existência deste estado de purificação.

O ponto culminante na reflexão sobre o Purgatório ocorre no Pontificado de Bento XVI (2005-2013), de uma modo particular na Carta Encíclica Spe Salvi, documento dado em 30 de novembro de 2007. Contudo, antes desta Carta Encíclica, o Romano Pontífice já tinha feito uma breve abordagem ao tema do Purgatório na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, dado em 22 de fevereiro de 2007. Neste documento, o Bispo de Roma exorta para a necessidade do salutar hábito de aplicação da Eucaristia como sufrágio pelos defuntos.

A Encíclica Spe Salvi, afirma que o célebre fogo do Purgatório é Cristo e, por isso, não é possível compreender o Purgatório sem a presença do amor de Cristo.

O defunto em purificação purifica-se mediante a relação com o amor de Cristo, que o leva a compreender a necessidade de uma integralidade profunda para atingir o encontro com Deus Pai. Este mandato da integralidade é-nos dado por Jesus quando convida: “Sede, pois, perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5,48).

Corramos também nós ao encontro da integralidade da santidade. Que o amor de Cristo, que purifica a Igreja padecente, impulsione a Igreja militante a trilhar um caminho de perseverança.

 

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